Quando a vida começa?
A biomédica Leila Farah acredita que essa questão impede o desenvolvimento da
clonagem terapêutica.
::Data de Publicação
01/07/2002
::Entrevistado Dra. Leila
Montenegro Farah
::Autores Revista do
Biomédico
::Resumo "Todas as
facções da sociedade estão se posicionando sobre a clonagem terapêutica e as que
falam mais alto são as religiosas e as científicas".
:: Texto Completo
Toda a discussão sobre clonagem terapêutica seria mais
simples se houvesse uma resposta definitiva para uma questão: quando começa a
vida? Esta é a opinião da biomédica Leila Montenegro S. Farah, que afirma que,
do ponto de vista biológico, não há resposta para isso, porque faltam dados.
“Toda a discussão política, social, religiosa, moral, ética e científica está
centrada nesse ponto”, afirma a geneticista, que tem participado de muitas
reuniões sobre o assunto. Afinal, trata-se de saber se o material extraído de um
embrião e utilizado para o tratamento de uma doença é apenas uma célula ou é uma
vida. Ou, em outras palavras: está se matando um ser para beneficiar outro?
De acordo com os estudos de Leila, nem as religiões concordam nesse ponto.
Para a Igreja católica, por exemplo, a vida começa assim que há o encontro do
óvulo com o espermatozóide e, nesse caso, qualquer retirada de células do
embrião pode ser considerada um assassinato. Para os muçulmanos, porém, a vida
só começa quando a mãe sente a criança se mexer, o que ocorre por volta de 18
semanas após a fertilização.
Assim, a manipulação de embriões para fins terapêuticos não implicaria
cessação da vida. Outro conceito é o de que a vida só começa quando o embrião se
liga ao útero materno, a partir do sétimo dia. A discussão também esbarra em
documentos legais, como a Lei nº 8974, de 1995, sobre Biossegurança, que levou a
Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) a proibir “a manipulação
genética de células germinais humanas” e “a intervenção em material genético
humano in vivo, exceto para o tratamento de defeitos genéticos, respeitando-se
princípios éticos como o da autonomia (respeito à vontade e aos valores do
paciente) e o da beneficência (tendo em vista o bem do paciente), de acordo com
aprovação prévia da CTNBio”. A lei proíbe a clonagem reprodutiva (que não é o
foco principal dos cientistas), mas dá uma abertura para a clonagem terapêutica,
já que nesse caso se estaria atendendo ao princípio da beneficência.
A clonagem terapêutica já se tornou questão de Estado e vem sendo discutida
no Congresso Nacional. “Todas as facções da sociedade estão se posicionando
sobre o assunto e as que falam mais alto são as religiosas e científicas”, diz
Leila. A biomédica considera importante que o Congresso tenha convidado
representantes da comunidade científica para discutir, porque muitas vezes leis
são votadas na área de saúde sem que se ouça as pessoas que trabalham na área.
O mesmo debate vem sendo desenvolvido em outros países, como nos Estados
Unidos, onde é proibida a formação de embriões para estudos de clonagem
terapêutica, mas se permite a manipulação dos que foram formados para fins
reprodutivos e não utilizados, com permissão dos doadores. A Inglaterra foi o
primeiro país a permitir a pesquisa com células-tronco, em 2000, mas até o 14º
dia de desenvolvimento. A discussão ganhou há pouco tempo mais um ingrediente.
Em fevereiro, o americano Michael West conseguiu fazer com que o óvulo de uma
macaca se dividisse por meio de tratamento químico, sem a fertilização por
espermatozóide. Se isso puder ser feito com óvulos humanos, seria possível a
obtenção de células-tronco sem a formação de um novo ser humano, o que, em tese,
diminuiria a polêmica.